Isto de ser feliz é complicado. E que não se confunda ser feliz, com alcançar a felicidade.
A felicidade, como nos vendem nos livros e anúncios publicitários, não passa de um conceito vago e indeterminado, apenas ligeiramente concretizável em momentos pontuais, nos quais nos permitimos deixar entusiasmar por uma ideia, por uma pessoa, um gesto, uma novidade ou uma vitória. E, a julgar pelo que vemos na televisão, um bom iogurte ou umas férias em time sharing na Quarteira podem-nos dar felicidade.
Circunstância totalmente distinta e mil vezes mais desafiante é estar feliz e permitir-nos permanecer assim.
Afinal, se tudo o que é bom nem sempre dura, estar feliz desassossega-nos a alma, na medida em que é uma sensação limitada pelo tempo e pelas circunstâncias. E depois de um momento bom, o que se segue só pode piorar.
Estar bem nos momentos maus é muito mais fácil.
Todos sabemos identificar e caracterizar aquilo que nos faz mal, mas perdemos essa clarividência perante aquilo que nos deixa feliz.
É,afinal, mais confortável antecipar um momento mau do que lidar com a incerteza de um final pouco feliz.
Uma das primeiras lições que aprendi quando comecei a trabalhar é que não existem maus profissionais. Pelo menos, os que o são, jamais o admitem.
Existem trabalhadores injustiçados, pouco reconhecidos e os obcecados. Maus trabalhadores nunca. Desmotivados, talvez, mas sempre por culpa do patronato.
O mundo do trabalho é um misto de laboratório científico e de palco de teatro. Todos actuam, mas na realidade não conseguem fugir à essência humana, o que dá material que sobra para realizar experiências laboratoriais de foro sociológico.
Na verdade, todos acreditamos ser bem melhor do que somos e em especial do que fazemos. Acreditamos ser mais justos, mais ponderados, mais inteligentes e generosos do que somos na realidade. Talvez por todos vivermos em estado de semi-inconsciência, seja por isso difícil aceitar, por um lado, críticas de terceiros e, por outro, os pequenos dissabores com que a vida nos presenteia.
Por regra, as fraquezas não se assumem e as imperfeições, custe o que custar, disfarçam-se. Somos divertidos, quando a ocasião ajuda e hipócritas quando as coisas não correm de feição.
Somos, especialmente, muito fortes e corajosos quando a situação discutida não nos afecta ou não nos diz respeito.
No fundo, somos todos uns sobreviventes e apesar das diferenças, somos afinal muito mais parecidos do que achamos.
Considerações sociológicas à parte, regresso ao ambiente laboral para concluir que não existem trabalhos bons. Existem, por vezes, empregos maus.
Campolide é um bairro curioso, onde o silêncio sepulcral com que se brinda um golo do Sporting é mais ameaçador que os gritos viscerais emanados a cada remate falhado do Benfica.
Cá em casa perdemos o hábito de ver telejornais. Digo perdemos, quando na realidade sinto que fomos forçados a eliminar esse hábito, geralmente qualificado como bom.
Os telejornais, nos tempos em que eram sérios e não se nivelavam pela mediocridade da sociedade, permitiam-nos de forma fácil e utopicamente directa tomar conhecimento dos acontecimentos mais importantes do panorama nacional.
Hoje em dia, o que constitui um acontecimento importante, é difícil definir. Assume igual prioridade uma vitória esmagadora da Selecção Nacional, um acidente rodoviário num túnel na Bélgica, a desertificação do interior, um duplo homicídio passional e o diz-que-disse político, incongruente e desalinhado com o bode expiatório da troika.
Surpreendentemente, falar bem e dar sinais positivos parece ser fatela ou no mínimo sensaborão.
De há um ano e meio para cá, assistir a telejornais tornou-se um desafio nacional, quiçá ainda maior e duro do que sobreviver às medidas de austeridade ou a um inverno sem chuva.
Assistir a telejornais e manter a sanidade mental, tornou-se uma tarefa árdua, quem sabe até impossível.
As notícias más chegam a todo o lado, é certo, mas chegam ainda mais rápido a quem não só as tem que viver, como relembrá-las ao final de um dia de trabalho que apesar de mal pago, na opinião dos senhores jornalistas, é exactamente o que merecemos e é melhor do que nada, pois mil euros por mês são suficientes para que uma grande parte da população seja considerada rica, do desemprego ninguém sai e o futuro não existe aqui.
Abstrair das novidades torna-nos menos críticos, é certo, mas sem dúvida alguma permite-nos ser mais felizes.
As notícias leiam-nas os emigrantes, para que ainda consigam acreditar que ainda se recordam de como é viver aqui.
"Espero que São Paulo te tenha recebido bem , de braços bem abertos e sorrisos rasgados (...) Não te esqueças de contar como é que tudo está a correr por aí. Mas peço-te que não me contes demasiado, sob pena de ficar a morrer de inveja e ciúmes dessa cidade que roubou de nós ."
Cada vez que vou a Madrid, é inevitável não comparar o crescimento e a movida daquela cidade com a parábola das Bodas de Caná. À semelhança da multiplicação do peixe, pão e vinho, em Madrid multiplicam-se espaços culturais, de diversão, bares, restaurantes e cafés em espaços ínfimos.
Bairros degradados convertem-se em espaços de desfile de moda, locais que atraem restaurantes trendy e gente cosmopolita que vive a vida como apenas os espanhóis.
Os lúgubres matadouros dão lugar a centros de criatividade e inovação, onde a cultura e a veia artística é promovida.
E , na mesma cidade, as tabernas do antigamente com beatas e lixo no chão, convivem harmoniosamente com a realidade da vertiginosa modernidade.
Ninguém vive como os espanhóis.
Afinal, hay que tenerlos, para saber levar para a cova o melhor que esta passagem tem para oferecer.
Mercado de San Antón
Have we met before?
Outros mundos