Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Continuar doente, após superar as intermitências da morte, permite-nos ganhar consciência do inevitável torpor mental de um desocupado durante os dias úteis: a televisão adormece-nos, os vizinhos estão sempre apressados, o trânsito na rua denota uma azáfama que não nos é permitido sentir e as horas tornam-se iguais, encadeadas por pequenos momentos de ausência de lucidez, provocada pela acção dos analgésicos.

Por outro lado, nos momentos que antecedem tal fase de reflexão pós-traumática, ganhamos consciência do estado de suspensão em que se mergulha  durante o periodo de recobro.

A crise económica tornou-se irrelevante; o aniversário do ManOel de Oliveira já não nos inquieta (tão-pouco surte grande efeito pensar que o senhor dedicou o seu dia de aniversário ao trabalho, nem que o produto final deste nos poderá atingir, fatalmente,  em breve); o uso abusivo da desculpa da crise, pelas empresas rafeiras que escorraçam trabalhadores ao mesmo tempo que recorrem à ajuda estatal para alegadamente manter o seu nível normal de funcionamento já não nos consegue revoltar- é a vida!; por instantes,  a Angela Merkel parece elegante e o Sarkozy quase que nos surge altivo, no seu metro e setenta bem esgalhado.

 

A conclusão parece-me, pois, inevitável: a vida (ou a ausência dela), torna-se mais sustentável sob o efeito dos comprimidos.



publicado por A.N às 20:15
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1 comentário:
De 100 Sentidos a 15 de Dezembro de 2008 às 20:35
Antes de ler a sua última frase, pensei nisso mesmo!
A febre e os analségicos são fantásticos!


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