Domingo, 25 de Outubro de 2009

 

Numa fase tardia da adolescência, pertenci a um grupo de jovens católicos que se reunia, semanalmente, para problematizar, de forma literal, as situações com que se batiam diariamente e os desafios que lhes eram colocados pela actual sociedade laica.

Quando digo de forma literal , significa que invariavel e voluntariamente me encerrava todas as quartas-feiras à noite numa sala onde me exigiam que pusesse a nú os meus pensamentos, opiniões e episódios quotidianos; onde me era ordenado que aprofundasse e problematizasse as minhas escolhas e invariavelmente me levavam a concluir que a salvação terrena passa pela evangelização de terceiros.

Recordo, com um sorriso, o desconforto que antecediam aquelas reuniões e que via espelhado no rosto da minha amiga A. que me solicitava ajuda para inventar problemas e indecisões para que não lhe faltassem trunfos na discussão que se seguia.

Recordo, ainda, o sarcástico comentário do meu pai ateu todas a vezes que saía de casa para ir a essas reuniões: “Coitadinha, é jovem...não pensa!”.

Paradoxalmente, Saramago , cuja obra continuo apenas a conhecer de forma muita incipiente, e a sua mais recente polémica, traz-me à memória a minha antiga proximidade cristã, pois à semelhança do que sucedia naquela altura, a sua aparente necessidade de problematização e a inevitável e redutora rejeição preliminar do catolicismo, conduzem-me a um estado de extremismo, com o qual nenhum ser adulto esclarecido e racional se pode e deve conformar.

À semelhança do que sucedia na facção católica, parece-me que Saramago encara as questões de forma demasiado séria , para delas extrair verdades absolutas e conclusões demolidoras que o parece conduzir a uma espécie de evangelização encapuzada, destinada a convencer os restantes da idiotice abismal que é o catolicismo.

Jamais colocando em causa a inteligência do premiado escritor e esclarecendo que hoje em dia não me posso, por uma questão de coerência, apelidar-me de católica, prefiro, por respeito à obra e à pessoa, acreditar que as palavras proferidas no lançamento de “Caim”, não passam de um desabafo inconsequente e de uma já não inovadora estratégia comercial, capaz de colocar o livro nas mãos de quem o conhece e de quem nem por isso.

Por outro lado, uma brilhante amiga comentava no outro dia que no seu entender José Saramago não passava de um grande sádico que com a sua escrita controversa e imaginação violenta, proporciona verdadeiros momentos de sofrimento aos seus leitores, dificultando-lhes uma tarefa que é suposta ser prazeirosa: ler. Não sei se concordo com a minha amiga, mas a julgar pela sua persistência nos temas católicos e considerando a sua aversão por aquela religião, não há dúvida que o masoquismo só pode ser apreciado pelo Nobel português.



publicado por A.N às 16:50
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1 comentário:
De defenderportugal a 25 de Outubro de 2009 às 17:21
Rita, eu sou uma das pessoas que concorda com o Saramago. Julgo que o que ele disse é inegável na minha opinião. Ao lermos a Bíblia temos descritas mais de 2 milhões de mortes cometidas por Deus ou em seu nome. Alguns episódios não quantifica os mortos como o Dilúvio, Sodoma e Gomorra. No caso do Dilúvio é o mais evidente. As crianças e os animais também eram pecadores? Como vês quando ele diz que este Deus é cruel está a falar acerca do que está escrito na Bíblia, não está a inventar.
João Rebelo


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