Terça-feira, 6 de Abril de 2010

Atravessar uma fronteira terrestre na América Central é um festival de ruído, côr, pó e bugigangas de plástico que  constituiriam verdadeiras pechinchas, não fosse o facto de esteticamente, tais utensílios e artefactos constituirem uma afronta para a visão.

Nas fronteiras da América Central tudo acontece: negoceiam-se passaportes, vistos, transportes, refeições, roupa, electrodomésticos e os mais recentes feitos da contrafacção musical.

Na fronteira entre o México e o Belize, proliferam igualmente casinos que dão o ar da sua graça numa terra de ninguém, apelidada de Zona Livre, onde turistas incautos facilmente se confundem, podendo aí permanecer horas sem se darem conta de qual a direcção correcta por onde caminhar para entrar, finalmente, no Belize.

Caminhámos de mochila às costas e pés empoeirados até chegar a um posto fronteiriço onde poucas perguntas foram feitas e um antigo autocarro escolar aguardava os transeuntes, para os transportar até Belize City (situada a 180 quilómetros da fronteira), sob um som ensurdecedor de reggaeton e com direito a inúmeras e demoradas paragens, assinaladas ou não, onde mulheres e pequenas crianças desapareciam no meio do mato.

Por uma questão estratégica, optámos por assentar arraiais em Corozal, uma cidade incaracterística no norte do Belize, onde muitos escolhem viver, dada a proximidade com o México e o acesso facilitado a bens de primeira necessidade e serviços a preços mais económicos.

O local escolhido para as duas noites destinadas a Corozal foi o Seabreeze Hotel, poiso de backpackers que aí chegam em busca da varanda com vista para a baía, a qual poderia ter-nos proporcionado um cenário idílico, caso durante a nossa estadia o sol não brilhasse de forma tão tímida e o azul da água se deixasse ver.

Saídos de um romance de Hemingway (e igualmente ébrios), reformados americanos relataram-nos histórias de vida, reais, fictícias ou enfatizadas pelo álcool, numa noite amena de brisa marítima e cerveja fresca. Ouvir relatos de sobrevivência e de aventuras de guerra, viagens marítimas e naufrágios, na varanda de uma cidade nortenha de um ex-colónia britânica do Caribe, onde o inglês dos visitantes, apesar de corresponder ao idioma oficial do país, praticamente é substituído pelo aroma doce do espanhol falado pelos seus habitantes, permitiu-nos sentir, pela primeira vez, realmente longe de casa... o que não foi necessariamente mau.



publicado por A.N às 23:48
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Carimbos no passaporte
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