Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

 

Ele gostava de a ver chegar ofegante, com os cabelos desalinhados e olheiras profundas das longas horas perdidas em frente ao computador. Estupidamente tinha-se convencido que o deixava mais incomodado a calma dela, do que a euforia que a assolava em dias como aquele.

 

Ouvia-a lamuriar-se do dia, dos colegas, do volume de trabalho, das filas do supermercado, do idiota do taxista que insistiu em não deixá-la mudar de faixa de rodagem e sorriu ao ver o trejeito irreflectido que ela fazia com a boca, ao relatar episódios que a indignavam.

 

Desvalorizava as dores que ela sentia nas costas. Afinal, eram mais umas para juntar à sensação de pernas cansadas e às feridas incessantes provocadas pelos sapatos novos que ela não deveria ter comprado.

 

Indiferente ao olhar absorvente dele e à passividade com que a escutava, ela prosseguiu, relatando ao mais ínfimo detalhe o almoço que tivera com a mãe, as críticas que a mesma tecera à forma como eles insistiam em adiar a decisão de trocar de carro e a secreta censura da decisão de não terem filhos.

 

Ela pôs a mesa em gestos rápidos e  nervosos e ele soube que ela sentia fome. Ficava sempre eléctrica quando tinha fome e apesar do esforço que fazia para controlar a ansiedade, a forma imediata como a mesma se dirigia à cozinha quando entrava a casa denunciava-a.

 

Aos poucos deixou de a ouvir e concentrou-se nas garfadas de arrorz, recordando outros tempos em que ela não se queixava, não estava cansada e não se esforçava por se conformar com um mundo que um dia tinha ousado rejeitar.

 

Tinham envelhecido os dois e ele adivinhou que ela, nas suas costas, provavelmente queixar-se-ia dele e dos seus hábitos às amigas. Não por convicção, mas por necessidade de o fazer, para  ser aceite e, talvez, por precaução, porque as desilusões são inevitáveis e que ninguém pudesse, eventualmente, duplicar a sua humilhação, recordando-a das maravilhas que um dia proferira acerca dele.

 

Resolveu não lhe dizer nada naquela noite e deixá-la falar.

 

Um dia destes ele perguntar-lhe-ia o que sucedera para a deixar tão amarga.

 

Hoje, porém, o azedume dela ainda lhe basta e amanhã, afinal, sempre é outro dia.



publicado por A.N às 19:43
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