Terça-feira, 5 de Outubro de 2010

 

 

Deve-se recorrer à nostalgia com cautela, seleccionar pormenorizadamente as memórias que se pretendem recuperar e reviver e deixar sossegadas as imagens menos simpáticas que ousam recordar-nos de um eu que podemos já não querer como nosso.

 

Recordar a adolescência, por exemplo, sem recorrer aos ditames da razão, rapidamente passa de uma operação de maquilhagem e de doces memórias selectivas, para uma verdadeiro processo masoquista.

 

Somos levados a recordar o travo amargo e permanente da insatisfação e das frustrações,  bem como dos pensamentos que povoavam as nossas mentes, convictamente adultas e lamentavelmente atrapadas em corpos de criança.

 

Os quinze anos ainda cheiram a pastilha gorila de mentol, a cigarros mal fumados em casas-de-banho alheias, a constantes batalhas, derradeiros momentos, questões de vida ou morte debatidas em salas perfumadas a CK One e ao som de 4 Non Blonde.

 

Bilhetes de identidade falsos, horários para voltar a casa, semanas sem pisar o risco não fosse o diabo tecê-las e na sexta-feira seguinte não haver discoteca para ninguém. A angústia dos fins-de-semana fora e a ausência forçada nos grandes momentos, nos únicos momentos, nos episódios derradeiros.

 

A impotência numa idade de certezas, a auto-crítica constante, o pavor da repreensão, o desejo de não ser diferente.

 

As ancas que não enchiam condignamente as calças, as mentiras piedosas, as filas de espera impiedosas, onde o traje preto e branco não nos protegia do Inverno nem dos comentários jocosos da porteira que fingia não saber que legalmente não podíamos permanecer naquele recinto.

 

Os desgostos, os medos, as inseguranças, os arrufos, a certeza de que tudo vale a pena e que todas as causas são suficientemente boas para que possamos morrer por elas, o dramatismo, a emoção, a tempestividade, a convicção absoluta que aqueles amores inexperientes e desastrosos seriam os únicos que algum dia conheceríamos e que o mundo estava ao nosso alcance, sem nos exigir nada em troca.

 

Os quinze anos foram o que foram e aquilo que deles retirámos, já ninguém nos pode tirar . Se os devemos ou não celebrar, é dificil afirmar.

Mas benditas as opções que hoje tomamos porque um dia já os vivemos.



publicado por A.N às 20:17
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1 comentário:
De Rita Lancastre a 22 de Outubro de 2010 às 15:26
Ritinha! Amei este texto. Voltei aos meus 15 anos, com todas as dúvidas existenciais a eles associadas, os dramas, os namoricos, as dúvidas, os cheiros (como é que te lembras do CK one e do CK be?!?!), enfim, quando nos sentíamos os reis do universo!... Agora a trabalhar num colégio vivo isso todos os dias e dou graças a Deus por já ter vivido os meus 15 anos. Beijo grande, Rita


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