Domingo, 14 de Novembro de 2010

 

A idade torna-nos mais selectivos nos amigos, quer se tratem de novos ou velhos amigos.

Os novos são fácilmente excluídos se algum traço da sua personalidade nos deixa antever incompatibilidades futuras ou se os pontos de interesse em comum , à partida, são escassos.

 

Os antigos, porém, começam a ser arrumados e catalogados em espécies e secções, à semelhança da organização que a dona de casa compulsiva impõe na sua despensa: os casados de um lado, os casados com filhos ao fundo da primeira prateleira que na linha da frente apresenta os solteiros ao lado dos divorciados, os divertidos numa zona de fácil alcance, os complicados ou mais sensaborões na última prateleira à esquerda, onde os frascos com as bolachas costumam ficar esquecidos até que uma visita gulosa nos pergunta se temos algum doce para trincar.

 

Consoante a disponibilidade de tempo e emocional, voltamos a seleccionar entre os amigos disponíveis aqueles que se adequam ao nosso ritmo de vida actual, à nossa predisposição momentânea e ao tipo de programa a realizar.

Partilhar a companhia de alguém pelo simples prazer de fazer deixa de ser natural, numa época em que o mundo nos exige eficiência.

Inevitavelmente tendemos a escolher aqueles que no momento em causa coincidem connosco fisica e emocionalmente, preterindo a companhia daqueles de quem as nossas ideias preconcebidas e não necessariamente justas nos afastam.

 

A chegada aos trinta anos faz-nos compreender que temos que escolher equipas. Permanecer neutros e confiar na escolha aleatória dos elementos fortes das equipas adversárias já não basta para sermos aceites. As escolhas são feitas e a partir do momento em que se consolidam não há retorno possível.

Com o anel, alegadamente vem a incapacidade para compreender o flirt e a solidão; com o emprego consumidor desaparece a capacidade de acreditar no altruismo e nos valores morais elevados que alguns abençoados ainda defendem e acreditam porque abençoadamente nunca conheceram o lado escuro da realidade e com os filhos ou a antecipação deles deixamos de nos poder sentar à mesa e ouvir confissões de verdades incómodas porque a barricada que um dia nos uniu, hoje insiste em separar-nos.

 

Não queria imprimir o meu nome na camisola da equipa errada, mas ao que parece já não é possível escolher a camisola cinzenta.

 

 

 

 

 

 



publicado por A.N às 11:17
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3 comentários:
De NMA a 15 de Novembro de 2010 às 17:05
fónix, espero não estar "na última prateleira à esquerda" :D


De Jacinto a 15 de Novembro de 2010 às 23:30
Bah, somos catalogados desde pequeninos e raramente podemos escolher a equipa a que queremos pertencer.


De metro madrid a 19 de Novembro de 2010 às 14:37
Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou estudando Português, eu não consigo entender tudo, mas quase! ;)


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