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O mundo da Ch@p@

Tudo bons rapazes

A.N, 11.08.06
Sarcásticos, corrosivos, críticos profissionais .
Mas, sabe-se lá por quê, são meus amigos e apesar de dedicarem uma quantidade significativa dos seus dias a gozar com o "Mundo da Chata", como tão carinhosamente chamam a este cantinho da blogosfera, ei-los de volta à publicação diária dos seus momentos de inspiração.

O "blog sério" da Chapa apresenta:
Lonely Fonzie
Muzik4themasses

Segundas impressões

A.N, 08.08.06



Oito anos depois e partes havia onde pouco ou nada parecia ter-se alterado. Mas essa primeira impressão rapidamente se desvaneceu.

Em Kreuzberg, onde ficamos hospedados, o tempo, por vezes, parecia ter ficado em modo stand by desde 1985.

As roupas, os cabelos, os carros e os punks que um dia ilustraram a capa do “Achtung Baby” ainda estão muito presentes em Berlim, coabitando em harmonia com vanguarda cultural só comparável a Nova Iorque ou Londres.

Há oito anos atrás o Postdamer Platz praticamente não existia.

Amontoados de taipais, escavadoras e outros materiais de construção preparavam a remodelação daquele no man´s land, anteriormente cercado por paredes grossas de um muro que hoje, em jeito de recordação, serve de mostruário de graffitis.

Hoje em dia, o complexo modernista do Sony Center e a Filarmónica de Berlim deixam extasiados arquitectos que aí procuram a inspiração.

Berlim Leste está irreconhecível, com restaurantes, cafés e esplanadas para todos os gostos e géneros, recuperando ainda as marcas de uma cisão dolorosa que ainda hoje os berlinenses curam, dando ao mundo um exemplo de renovação, força, coragem e trabalho.

Mais do que qualquer outra cidade por onde passei na Alemanha, Berlim personifica a dor de um passado que não está tão longínquo como, por vezes, erroneamente parece.

Os relatos tristes das "duas Alemanhas" ainda se escutam e um pouco por toda a parte se encontram vestígios e lembranças do passado negro que o país ainda detém.

Porém, o ambiente que se vive em Berlim, nos dias de hoje, é de prosperidade, de positivismo e , sem dúvida alguma, de modernidade e urbanismo.

Muito mais do que uma cidade alemã, Berlim é uma cidade do Mundo, (re)construída das cinzas da sua história e das milhares de histórias de estrangeiros que aí construiram as suas vidas e coloriram o ambiente cosmopolita e multicultural que a cidade hoje nos apresenta.

Por um lado, assusta pensar que o aparecimento, galopante, de tantas “cidades do mundo” pode conduzir ao desaparecimento das especificidades e do historicismo de algumas cidades, fazendo com que todas elas se confundam entre si e se torne indiferente viver em N.Y ou Barcelona ou sequer em Londres.

Todavia, a realidade que ainda se vive em Berlim é única e o carácter que dela emana não se confunde com aqueles que podemos encontrar numa qualquer outra cidade com a qual tenhamos a fraqueza de compará-la.

Satisfeitos e totalmente rendidos, partimos para Munique, onde uma diferente realidade nos aguardava.

Era tempo de abandonar o sonho e regressar à Alemanha.

Redescobertas

A.N, 07.08.06



Ao fazer as malas, hesitei em levar comigo uma camisola de malha ou o simples casaco de algodão.

Notícias chegavam de Berlim de que a cidade estava mergulhada numa vaga de calor que enfraquecia os mais idosos, desesperava os utilizadores de transportes públicos e expulsava para as ruas cosmopolitas transeuntes que com as suas gargalhadas e cervejas alegravam as esplanadas.

Optei pela camisola de algodão, mas à cautela levei uns sapatos fechados em alternativa às chinelas da praxe.

Ao trancar o fecho da mala apercebi-me que pela primeira vez na minha vida, não dispunha de um mês inteiro de férias.

Simultaneamente, este foi também o primeiro ano em que a praia e o sol ficaram relegados para segundo lugar, o que de certa forma assustava, pelo inédito da coisa e pela suspeita de que uma incursão pela Alemanha pudesse vir a revelar-se demasiado cansativa ( o que a longo prazo se revelaria, de forma negativa, no meu desempenho profissional).

Escolher a Alemanha como um destino de férias gerou perplexidade em algumas pessoas com quem comentei a decisão repentina de viajar.

Apesar de afortunados pela abundância solar, português que se preze não troca o seu descanso de veraneio por umas férias agitadas num país onde a temperatura média de verão são 20º e onde a chuva resolve chegar sem ser convidada.

Abandonámos Lisboa incertos do que se nos reservava: a expectativa da redescoberta de Berlim e Heidelberg depois de oito anos poderia revelar-se decepcionante? Que dizer do meu companheiro de viagem que, pela primeira vez, iria finalmente conhecer as cidades de onde guardei tantas boas recordações que tão assiduamente lhe relatei?

Como mais tarde escrevi a uma amiga, redescobrir cidades obriga-nos à introspecção e à nostalgia, que por sua vez nos permitem ganhar uma objectividade desconhecida face à pessoa que outrora fomos quando naqueles lugares andámos.

As diferentes circunstâncias de tempo e a evolução pessoal estremecem as memórias e, atónitos, por vezes não nos reconhecemos nas anteriores fotografias, nas situações passadas, naquela pessoa que um dia passeou naquelas mesmas ruas e que hoje mal reconhecemos.

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