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O mundo da Ch@p@

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A.N, 14.10.08

Assim somos, nós, portugueses.

Confortavelmente crentes, esteticamente preocupados com o próximo, isentos de ambição e de verdadeira vontade de investir, concretizar, realizar.

Vivemos o dia a dia entre o horário a que nos encontramos vinculados e ao final do dia, se o corpo não exigir um sofá, talvez nos dignemos a visitar o ginásio, antes de corrermos para o refúgio do lar.

Sorrimos aos recém-chegados, mas não lhe oferecemos cama em casa.

Conversamos animadamente com desconhecidos, reservando sempre uma saída airosa para situações intensas.

Em suma, não damos passos sem avaliar qual o benefício que podemos retirar das nossas acções.

De igual modo, encaramos a religião, subvertendo a lógica de um Deus pai e misericórdia, para um Deus caprichoso e irascível, a quem não convém irritar, não vá ele não nos conceder os pedidos do mês. No final do dia, a análise não passa por um Deus que acompanha, mas um Deus que dá, que tem que dar e que convém que dê.

Rumamos aos milhares para Fátima e proporcionamos um espectáculo místico de velas e emoção, em romarias e procissões que disfarçamos com a fé, mas que no final esconde propósitos egoístas, perfeitamente justificáveis pela nossa natureza humana e ausência de profundidade de análise.

Mas pergunto: faríamos o mesmo perante um propósito social?  Lutariamos por ideais e convicções, se soubessemos que o resultado dessa luta poderia ser-nos favorável, apenas indirectamente?

Conseguirá a sociedade portuguesa ganhar uma consciência de classe, da mesma forma que cegamente continua a abraçar a consciência de crente ou no final do dia, tal implica uma energia e alheamento pessoal, incompatível com o chamamento do sofá e da certeza do ordenado no final do mês?

 

 

Um domingo de chuva

A.N, 12.10.08

 

A visita a uma feira de mobiliário , enquanto criança, funcionava como um maravilhoso passeio após um jantar prematuro, findo o qual regressava a casa saciada de gente e confusão, carregada de sacos de brochuras, brindes e catálogos esquecidos, durante dias, na mesa de entrada.

Anos passaram e a mesa de entrada já não se entitula de tal forma: transformou-se numa consola, onde já não nos esquecemos dos catálogos e brindes da feira, mas sim de um amontoado de chaves e carteiras, cartas e reminders.

Na sala, já não tenho um móvel, mas sim um aparador gigantesco, o qual não se torna claustrofóbico devido ao alto pé direito da casa .

O mobiliário branco tornou-se  lacado e a outrora conhecida como placa de vitrocerâmica diz-se que agora é induzida.

 

Os anos passaram e a feira perdeu o brilho das infimas possibilidades de aquisição que alimentavam as visitas de meninice.

 

A terminologia passou-se a conjugar com os orçamentos e as mãos já não regressam cheias de catálogos: apenas a cabeça cheia de ideias e um bolso demasiado pequeno para poder acomodá-las.

 

 

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A.N, 12.10.08

Existe um termo. Uma limitação temporal para algo que começou sem certezas de inicio ou um fim à vista. Um termo sem necessidade de justificação. Um termo cuja verificação implica a cessação de todos os  efeitos do acordo firmado.

Não um meio termo, um termo.

E isto merece um brinde.

 

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A.N, 09.10.08

Depois da minha primeira reunião de milhões, recheada de fatos de bom corte e sapatos impecavelmente engraxados, percebi que a crise de que se fala existe apenas nos bolsos dos casacos de polyester da Zara e nas filas tristes de final de dia no Minipreço da minha rua.

Falou-se dos milhares perdidos em Bolsa e dos bons investimentos nos mercados asiáticos.

Enquanto esta realidade distante se erguia perante os meus simples olhos, observei os colarinhos bem engomados e pensei que em tempos de crise, nada como ser medianamente pobre, sem milhões para perder ou cofres para comprar.

 

Ópio do povo

A.N, 06.10.08

 

Uma promessa cumprida de um ano de ausências nas bancadas de Alvalade.

Um ano sem ameaças de úlceras nervosas, achaques cardio-vasculares e mood swings inesperados.

Um ano de intensa gestão emocional e de bloqueio de conteúdos desportivos, para me voltar a encontrar agora, no exacto local onde me encontrava há um ano e meio atrás, enfurecida e traída pela ausência de regras do esférico; permeável às irritações e provocações dos restantes treinadores de bancada; desanimada perante a ideia de ver, mais uma vez, o título afastar-se.

 

Para uma não crente, começo a acreditar que o futebol é de facto uma fé que transcende as regras da razão.

E, apesar de profunda ignorante dos textos da Biblia, parece-me que o sermão do futebol cativa mais eficazmente.

Afinal, mudar de religião tornou-se corriqueiro nos dias de hoje.

De clube, para mal dos meus pecados (literalmente) , é que não.

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A.N, 06.10.08

Parar parece ser a palavra de ordem.

Parar para pensar; ordenar ideias e reciclar papéis. Seleccionar os programas culturais, os pratos que vamos experimentar, espreitar a lista de restaurantes recém-abertos e aproveitar a Lisboa pacóvia, mas deslumbrante em que vivemos.

Acumulam-se post its e listas intermináveis de afazeres, com lembretes sublinhados e moradas mal anotadas.

 

Projectos, chamam-lhe.

 

Esperança, digo eu.

"In English, Maria Helena"

A.N, 02.10.08

 

 

Como se escreveu, acertadamente, num jornal madrileno, Woody Allen continua grande, mas já não é um dos grandes.

 

Vicky Cristina Barcelona, tem, como o nome indica, o cenário da capital catalã para uma trama amorosa ligeira, divertida, perdida algures entre o cliché do fogo da paixão latina e o sarcasmo intelectual nova iorquino, através do qual se expressa a alma do realizador, denunciada nos trejeitos dos personagens e na hesitação das suas falas.

 

No entanto, aos fãs da velha guarda, o resultado final saberá a pouco.

Independentemente  das expectativas geradas em redor deste filme, uma hora e meia de leveza cinematográfica sabe bem a quem não entra na sala de cinema para proceder a uma análise qualitativa, mas sim para relaxar e matar saudades do estilo neurótico e obcessivo de Woody, transposto para o ecrán através dos desempenhos do seu fantástico elenco de actores.

 

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A.N, 01.10.08

Ela falava-lhe da nova amiga, recorrendo a termos como "complexa", "temperamental", "demasiado frontal".

Ressalvava, porém, que nutriam um especial afecto uma pela outra e que se entendiam muito bem.

A outra encolheu os ombros algo desdenhosa. Não pretendendo formular definitivos juízos de valor disse-lhe não acreditar em amizades instantâneas, aconselhando-a a ir com ponderação e calma.

Referiu-lhe que seria boa ideia manter alguma distância, prezar o cerimonial e não abrir, de par em par, as portas e janelas de sua casa.

 

Hora depois reflectia nas suas próprias palavras.

 

Em que momento da vida tinha decidido abraçar o cinismo e avançar apenas em terrenos seguros?

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