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O mundo da Ch@p@

Que virtude a nossa

A.N, 06.01.12

 

 

Temos andado pacatos, a gozar o inesperado sol de Inverno e as temperaturas amenas a sul.

Os dias cheiram a Verão, mas as noites recordam-nos que estamos em Janeiro, o primeiro mês do ano que, segundo dizem, tudo vai acabar. (Continuo a acreditar que toda esta histeria colectiva se deve à preguiça de um maia incauto que farto de artes adivinhatórias, resolveu ir jogar à bola quando chegou à marca 2012.)

 

Como resolução de ano novo (ou continuação de uma resolução sensata, mas passada), a televisão cá de casa tem-se recusado a emitir telejornais. As notícias chegam em formato de papel, à moda antiga, e mancham-nos os dedos durante o pequeno-almoço, altura em que tem sido mais fácil digerir o que de menos bom acontece neste país e as mudanças legislativas que em breve influenciarão, ainda mais, o dia a dia dos que ousaram ficar, nesta república desgovernada e desorganizada.

 

As notícias que perante este cenário idílico perturbam a nossa paz de espírito chegam na mesma e vêm inflamadas.

 

Insurgem-se as vozes contra a mudança da sede da Jerónimo Martins, empresa nacional que até há dias era tão bem vista por todos nós que compramos o que é nosso, com orgulho e dedicação, enquanto secretamente enviamos candidaturas de emprego para sociedades sediadas em Londres e em São Paulo e começamos a olhar com alguma cobiça a postos num organismo europeu sediado em Bruxelas que de tão apetecível que está ganha laivos tropicais, por entre a sua incessante chuva.

 

Criticam, pois, os portugueses uma sociedade que perante a elevadíssima carga fiscal a que pessoas colectivas( e singulares) se encontram, actualmente, sujeitas em Portugal, sem perspectivas de melhoria e sem incentivos excepcionais ao investimento, procura atingir o seu fim máximo, i.e obter proveitos lucrativos , recorrendo para isso à mudança da sua sede social para um país onde o panorama económico continua atractivo.

 

Não sendo fiscalista, não me possível formular juízos de valor sobre esta opção. Contudo, assumo que alguma vantagem terá que ter a adopção desta medida pela Jerónimo Martins. E se essa vantagem, a longo prazo, se traduzir na manutenção e quem sabe criação de postos de emprego em Portugal, como posso repreender os responsáveis daquela empresa?

 

Aliás, como pode um cidadão comum criticar esta opção da Jerónimo Martins quando na realidade todos aguardamos que o bilhete mágico de ida para um país melhor nos caia no colo?

 

Mais, como pode uma máquina de Estado, sem verdadeiro sentido de nação e com um triste passado de representantes interesseiros sem sentimento patriótico, apelar a boicotes à Jerónimo Martins, fundamentando a sua posição em demagógicos valores éticos que a experiência mostra não existirem?

 

Por aqui permanecemos tranquilos. Incrédulos, perante estes últimos acontecimentos, mas tranquilos.

Temos sol e praias fantásticas que convidam a longos passeios que suavizam as perspectivas.

A retórica demagógica guardamos para o regresso a Lisboa e, até lá, fazemos a lista de compras a fazer no Pingo Doce.

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