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O mundo da Ch@p@

Tarde de domingo em Barcelona

A.N, 24.01.05




Hoje o meu amigo JP só conseguiu sair de casa às quatro da tarde. Mal sabe ele que isso sucederá mais vezes...

Ao contrário dos outros, ainda não se sente totalmente em casa em Barcelona.

Ainda não tem uma rotina, percursos viciados, amigos estrangeiros ou portugueses com quem combine ir comer uma shoarma ao Raval.

Os outros já saíram há algumas horas e não o avisaram do que iam fazer.

Agasalha-se bem e ao pisar a rua apercebe-se pela primeira vez que nesta altura do ano faz muito mais frio em Barcelona do que em Lisboa.

Não sabe explicar o porquê mas sente-se inquieto, sem no entanto se sentir assustado.

Sente-se dono do tempo e dos seus actos, mas ao mesmo tempo sabe que segunda-feira está à porta e que o domingo tem mesmo que ser muito bem aproveitado.

Está um daqueles dias soalheiros, mas frios, que convidam a passeios pela praia e a chocolate com churros ao final da tarde.

Segue desde a Ciutadella até à Barceloneta, sempre junto ao paredão, donde pode observar os grupos de jovens que ficam estendidos na areia a sonhar com os dias de verão.

Sente subitamente saudades da Pipa e pensa com curiosidade no que se estará a passar em Lisboa nesta tarde de domingo.

Ao chegar à Barceloneta , já cansado e atacado pelo frio, resolve apanhar o metro em Urquinaona, observando do seu lado esquerdo, enquanto sobe a rua, a Catedral.

Não a recordava tão bonita desde há dois anos quando me foi visitar.

Talvez a tivesse olhado com outros olhos, com olhos de turista anónimo...Mas agora olhou-a com mais atenção, expressando pela primeira vez aquela ternura típica dos habitantes de uma cidade face a um monumento da sua cidade, relativamente ao qual se sentem orgulhosos.

Em Urquinaona uma multidão cosmopolita, enérgica e multifacetada corre em direcção à linha encarnada.

Nas tardes do domingo praticamente todos os caminhos vão dar à Plaza Catalunya e o meu amigo JP não é excepção.

Ao sair da estação, JP sente-se em hora de ponta no Rossio, mas desta feita as pessoas não estão carrancudas nem sentem pressa.


Aproveitam a sua cidade e alimentam o seu pulsar de vida...e a sua cidade retribui-lhes esse orgulho, mantendo-se sempre desperta, sempre viva, sempre em movimento para agradar a todos os catalães e não decepcionar nenhum estrangeiro que ali tenta a sua sorte e tenta criar um lar.

O meu amigo JP desce agora as Ramblas, vê os malabaristas, os vendedores de flores e aves, a senhora com a perna amputada que rasteja a pedir ajuda, o homem estátua escondido sob a sua maquilhagem...

Um dia destes já não demorará tanto tempo a descer as Ramblas...um dia destes já não as conseguirá ver com os mesmos olhos... um dia destes, sem saber porquê, já não irá a correr entrar no Easy net para se ligar ao msn, porque o tempo entretanto passou e já será hora de partida.

Um dia destes o meu amigo JP estará aqui no meu lugar, a escrever sobre Barcelona com os olhos húmidos e um nó na garganta, ao lembrar aquilo que viveu e a adivinhar ingenuamente (como eu o faço agora) , aquilo que estarão a viver os recém-chegados à minha/nossa cidade...




P.S Um beijinho muito especial para o Jp e para a Pipoca que não admite mas morre de saudades!



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