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O mundo da Ch@p@

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A.N, 27.07.09

Não tenho filhos e por isso este texto vale o que vale.Tomem-no como totalmente desprovido de fundamento real e não procurem semelhanças com a realidade, pois para a minha sanidade mental e principalmente para a vossa sanidade mental, o mais fácil é analisar os personagens do enredo de um ponto de vista fícticio, distante, novelesco.

 

 

 

Era uma vez um filho que cresceu a acreditar que tinha os melhores pais do mundo. Por sua vez, os pais, de maneira gratuita e recíproca, consideram-no o melhor dos filhos, o mais astuto e paradoxalmente vulnerável das criaturas a quem a todo o custo tentaram proteger.

Protegeram-no na convicção que era o melhor de faziam, que abraçá-lo seria a melhor forma de compensar a loucura cruel da sociedade em que viviam, de o preparar para os desgostos que a vida lhe reservava, para o ajudar a superar os obstáculos com os quais eles próprios se tinham deparado e tinham tido dificuldades em ultrapassar.

Os anos passaram e de um dia, sem que aparentemente nada o justificasse, os pais deixaram de parecer admiráveis, deixaram de aspirar respeito, deixaram de ser ouvintes e companheiros para se reduzirem ao papel vil dos inimigos surpresa, com a necessária dose de desgosto e mágoa da descoberta.

Os pais, cegos e sem prejuizo do erro, insistiam na protecção, mas a falta de jeito e o cansaço da idade afundaram ainda mais o fosso que os separava.

Ele sentia saudades. Eles conheciam o desespero. O orgulho, por um lado, e o medo terrível de um ruptura definitiva amargava-lhes o gosto dos dias, a passagem das horas, os planos do futuro.

Um dia sentar-se-iam e o assunto nunca seria discutido, como se uma esponja o tivesse sugado, como se a nódoa tivesse milagrosamente desaparecido.

Ele continuaria a ter problemas e eles continuariam a laborar no mesmo erro, na constante esperança de que o desfecho fosse menos mau.

E à moda das boas famílias, nenhumas explicações seriam dadas. Na paternidade, aliás, as palavras parecem ser um bem supérfluo.

 

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