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O mundo da Ch@p@

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A.N, 08.02.11

"O tio João tinha-lhe dito que não fosse para Lisboa, que aquela não era terra de boa gente; que era sítio de outros costumes. Agora que o processo se arrastava há mais de três anos e as sucessivas viagens Lamego-Lisboa pesavam nos ossos e na carteira, Carlos arrependia-se de não ter seguido o conselho do tio e ter partido para Lisboa atrás daquele rabo de saias que lhe tinha dado cabo da vida.

Nunca se tinha acostumado a Lisboa. Os ruídos nocturnos constantes, o trânsito, as luzes, a pressa, as sirenes, as discussões da vizinhança que as paredes de pape o deixavam ouvir, tudo contribuía para o seu desassossego, para a sua vontade de largar tudo e voltar para Lamego, para a beira dos seus, para o sítio onde todos se entendiam e viviam confortavelmente sem as mariquices de Lisboa.

Dos tempos passados em Lisboa não guardava boas recordações, com excepção da carinha do pequeno Carlinhos quando nascera , dia esse singular em que também a mãe deste sorrira.

Agora encontravam-se de novo no tribunal, a calcorrear nervosamente os corredores do Tribunal de Família onde alguém, propositadamente, se esquecera de deixar cadeiras, onde crianças e adultos se misturam numa amálgama de dor e ressentimento , na esperança de um dia os poderem curar através dos ditames da lei e de uma decisão judicial.

Carlos não entendia o processo. Não entendia o que lhe diziam, não compreendia as demoras, os requerimentos, a passividade da juíz, a arrogância da procuradora e acima de tudo não compreendia como o advogado lhe pedia paciência, quando os amigos do café lhe tinham dito que não há tribunal nenhum que afaste um filho de um pai e que o José Manuel dos Amiais tinha tido um caso igual e que já há dois anos que o filho vivia com ele.

Carlos não compreendia as leis e as conferências, os recursos e seus efeitos, da mesma forma que não percebia porque uma coisa que era sua, não lhe era imediatamente entregue. "O lugar de um filho é junto do seu pai", repetia-lhe a mãe. "A continuar assim ainda morremos todos na estrada só para apanhar o gaiato", rosnava-lhe o pai.

Ver-lhe negada aquela que considerava ser a justiça natural enfurecia-o e emudecia-o perante a juiz. E mudo saiu do tribunal naquela manhã, não levando para cima o seu Carlinhos que jurava dizer-lhe que nada o deixaria mais feliz do que viver com o seu pai.

Essa mesma felicidade, acreditava piamente Carlos, certamente apagaria da memória do Carlinhos os cinco primeiros anos da sua vida em que o seu papá não quis saber dele."