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O mundo da Ch@p@

Oficiosos e outros que tais

A.N, 28.11.05
Ainda a próposito da “crise na Justiça portuguesa” e as últimas considerações proferidas pelo nosso mui ilustre Ministro Alberto Costa, respeitantes às fracas defesas oficiosas, aproveito este humilde espaço de antena para relatar a minha última história caricata com um oficioso.
Há cerca de um mês e meio, recebi mais uma nomeação oficiosa.
Desta feita, um iluste sr. X, acusado de um crime de cheque sem provisão passado à Segurança Social.

(Diga-se de passagem, que estamos perante um montante minimamente razoável!)
Como boa cumpridora do dever de patrocínio que recai sobre a minha pessoa, apressei-me a escrever uma carta ao senhor X, a informá-lo da nomeação e a disponibilizar-me para uma reunião para preparação da sua defesa.
Para grande surpresa minha, o senhor X, ao contrário de praticamente todos os outros oficiosos, contactou-me para o escritório, mostrando-se ávido por resolver a situação extrajudicialmente, propondo-se a pagar os montantes em dívida até ao dia do julgamento, tendo em vista uma desistência de queixa por parte da ofendida, esse belo instituto que é a Segurança Social.
Propus-me então escrever uma carta ao mandatário da ofendida, propondo-lhe o pagamento faseado do montante em dívida.
Para que não restassem dúvidas, o senhor X deu-me o seu endereço electrónico e o combinado seria que uma vez pronta a dita carta, e ainda antes que esta seguisse para o mandatário da Seg. Social, eu enviar-lhe-ia uma minuta, para posterior avaliação da sua parte.
O email foi enviado no dia seguinte e os dias passavam sem que eu recebesse qualquer feedback por parte do senhor X.
Uma, duas, três semanas, até que, finalmente, depois de um mês ( e ainda sensibilizada com as palavras proferidas pelo Sr. Ministro), decidi não descurar os meus deveres de zelo e diligência e liguei ao Sr. X, cuja voz alegre denotava que algo na sua postura tinha mudado:


“Olá Dra.! Como está? Há quanto tempo...”
“Bem obrigada Sr. X. Olhe, de facto já não falamos há algum tempo. Aliás, eu enviei-lhe um email com a minuta da carta para a Seg. Social. Está recordado? O senhor recebeu-o, não?”
“Pois...pois... Eu, de facto, recebi um email seu. É simpático da sua parte telefonar...Mas sabe, eu estive a pensar. Agora as coisas andam-me a correr melhor...Financeiramente, percebe? Por isso, façamos assim: eu até ao Ano Novo tento endireitar a minha vida e aí logo vejo. Se der, pago. Senão desde já lhe digo que não estou muito preocupado: vou preso! Eu até nem me importo Dra. Imagina só, comida, cama e roupa lavada, com televisão e tudo. Não me parece mal!”

(silêncio e estupefacção)

Sr. Ministro, acha muito mal que neste caso concreto, eu me levante na sala de audiências e me limite a pedir justiça e a receber 178 euros?
Se achar conveniente, pode baixar-me os honorários que nada tenho a opor, mas por amor de Deus, não atribua o fracasso das defesas oficiosas ao desleixo dos advogados estagiários.

Sem ovos não se fazem omeletes.
Ou estarei errada?

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