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O mundo da Ch@p@

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A.N, 17.10.05
Retomei o hábito de andar de transportes públicos, por franca necessidade ( o meu chaço ameaça morrer) e , em parte, por convicção.
Após anos de inércia mental e de genuíno pânico quando colocada perante uma qualquer situação que não implicasse locomoção em veículo próprio, eis-me a descobrir os prazeres e os inconvenientes de deslocar-me nos transportes públicos aqui da capital.
O tempo que perco a aguardar a chegada do metro ou do autocarro, não o recuperaria se estivesse no meu próprio carro, parada provavelmente entre algures e nenhures, no meio de gente histérica e igualmente desesperada por chegar ao seu destino a tempo e horas.
Os calos que ganho nas caminhadas e no bate pé da espera, são recompensados com o banho quente ao chegar a casa. Não só me amacia as palmas dos pés, como faz desaparecer as manchas negras das mãos, provenientes da poluição que se sente ( e, infelizmente , já se vê) na cidade.
Mas o mais importante foi ter descoberto , para meu grande espanto, que deslocar-me em manada com os restantes utilizadores do Metro e da Carris, me torna uma pessoa menos egocêntrica.
Ora veja-se: quando vou no meu bólide, a espumar de raiva em mais um engarrafamento na Rua da Escola Politécnica ou simplesmente estagnada nos semáforos das Amoreiras, zona assumidamente infernal desde o inicio das obras do túnel do Marquês, não páro de pensar em mim por um instante que seja.
Porque raio vim por aqui?
Que infeliz sou por ter que andar de carro?
Estou tão farta de estar aqui enfiada.
Odeio pessoas que não cedem passagem.
Quem me dera estar em casa, refastelada no sofá, a ver telenovelas de modo compulsivo.

Vou chegar atrasada outra vez!
Eu...eu...eu ..
Eu parada e histérica no trânsito, eu a desesperar no carro, eu farta da música da rádio, eu a apitar para o gajo da frente que adormeceu, eu a discutir com mais um taxista, eu preocupada com o preço da gasolina...
Percorrer o mesmo trajecto de autocarro ou metro faz-me parar de olhar para o meu umbigo e dedicar-me a uma tarefa muito mais interessante: o umbigo dos outros, os cabelos dos outros, os livros que os outros lêem, a especulação acerca das suas vidas, os seus possíveis destinos e hipotéticos pensamentos.
Resumindo a ideia: não apenas poupo uns trocos em gasolina, como não contribuo para a poluição do planeta e torno-me uma pessoa melhor, mais atenta aos outros e ao que me rodeia.

E tudo seria perfeito se os horários fossem cumpridos, se os condutores de autocarro não conduzissem como maníacos , se o metro à hora de ponta não fosse tão claustrofóbico e se os preços dos bilhetes fossem mais baratos.

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