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O mundo da Ch@p@

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A.N, 14.12.07
"Era uma pessoa obstinada em falar da vida que “teve” ao invés da vida que ainda terá e que será, certamente, longa.
Não se podia dizer que a vida que “teve” tivesse sido triste.
Antes pelo contrário, recordava com um secreto orgulho os momentos intensos que vivera e agradecia o dom de os conseguir interiorizar de maneira profunda, arrebatadora, agradecida.
A vida que agora tem é diferente, mas adoptara-a com um conformismo quase indiferente.
Mecanismos exteriores e gestos involuntários conduziram-na à rotina que não quis, mas que aprendera a gostar e na qual decidira confiar.
Os métodos e a organização davam-lhe, agora, confiança.
Os olhares aprovadores dos que com ela convivem aquecem-lhe o ânimo e a são responsáveis pelo aparecimento da vontade de dar de si, de construir, de trabalhar.
Um dia, sabia, o tempo que desperdiçava em papéis e relatórios, requerimentos e exposições seria sobrevalorizado e canalizado para melhores fins (ou pelo menos mais egoísticos).
Por agora, porém, o tempo escasseia, mas não é, ainda, um bem de primeira necessidade, nem um elemento deficitário na sua balança de pensamentos e emoções.
O sobretudo escuro, impregnado pelo ar contaminado de um open space no qual, por vezes, sente não se enquadrar, é esquecido, diariamente, junto à porta da casa que escolhera e agora mobilava.
A seu lado ficam, invariavelmente, esquecidos os saltos altos responsáveis pelas mazelas da sua coluna.
A sua nova pele, sofisticada e hidratada com os cremes surpreendentemente adequados à sua idade, dão-lhe um toque falso de maturidade, do qual aprendera a depender como forma de autodeterminação.
Contudo, nas manhãs de Verão, ao cruzar-se com as versões bronzeadas de si e que ainda não esquecera, uma ligeira inveja e nostalgia ocupava-lhe o espírito.
O tempo, pese embora ainda fosse gentil, já começava a afirmar a sua presença e a vincar o seu toque nas linhas do seu rosto.
As fotografias dos verões, arquivadas nas molduras que agora já pode comprar, deixaram de ter tons quentes e cheiros a fins-de-tarde.
Revelam, agora, duas míseras semanas espremidas ao máximo, nas quais insaciável busca um prazer tão efémero como a vida que sabe que agora leva.
Dizem que chegou à idade adulta.
Porém, ninguém lhe dá as boas vindas."

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